Localizado no centro de São Paulo, o bar Estadão traduz, como poucos lugares, o caos organizado e frenético que caracteriza a metrópole.
Para começo de conversa, sua cozinha funciona 24 horas. Seu balcão é democrático. Durante o dia, circulam por ali funcionários dos escritórios da região, famílias turistando e gente de passagem pelo centrão em busca de um lanche rápido. Quando anoitece, aparece o pessoal indo (ou voltando) da balada e todo tipo de trabalhador noturno, incluindo taxistas, policiais, paramédicos, garotas de programa, garis…
Nada de decoração da moda. Sua estética é a mesma de centenas de botecos espalhados por todos os bairros paulistanos, com azulejos que facilitam a limpeza, preços informados em quadros pelas paredes, estufas para salgadinhos e pê-efes na hora do almoço. Não há garçons nem mesas. O serviço é no balcão, com ou sem banquetas. Atendentes entregam os pedidos. Se optar por ficar de pé, você mesmo pega sua bebida. O consumo é pago diretamente no caixa.
O estabelecimento existe desde 1968 numa esquina em 30 graus entre o Viaduto 9 de Julho e a rua Major Quedinho. Mantém a mesma administração desde 1974. O nome vem de quando o jornal O Estado de S.Paulo funcionava no prédio ao lado.
Grande parte vai até ali atrás do sanduíche de pernil, de longe seu maior atrativo gastronômico. As pernas traseiras do porco são preparadas diariamente. O processo inclui temperar a carne apenas com sal e, depois de descansar por pelo menos 4 horas, leva-las a um forno bem quente, com dois dedos de água no fundo da assadeira, por outras quatro horas. São assadas por volta de 40 peças por dia.
O sanduba é preparado na hora, na frente do cliente, com fatias finas, cortadas em perpendicular ao osso, na quantidade certa. A carne vem junto com o molho da casa, feito com tomate, cebola e pimentão, dentro de um simples pão francês. Quem quiser, pode pedir para vir com queijo. A combinação clássica é com provolone, mas também dá para pedir com gouda, prato, palmira, minas ou cheddar. É ótimo!
Outra comidinha tradicional do lugar é a coxa-creme, uma precursora da coxinha com catupiry que virou símbolo de salgadinho brasileiro de uns tempos para cá. O quitute era muito comum nos bares paulistanos em décadas passadas, mas acabou perdendo espaço por ter um preparo mais elaborado. É preparado com a própria coxa do frango, mantendo o osso, envolta em uma massa cremosa à base de manteiga, depois empanada e frita.
Ainda está com fome? Pois bem, o Estadão é um dos poucos lugares da cidade que serve feijoada já de madrugada, antecipando em algumas horas as quartas e os sábados. A feijuca começa a ser servida às 18 horas de terças e sextas e ajuda a alimentar a legião de trabalhadores que movimentam a cidade à noite. O prato, individual, chega fumegando em um recipiente de cerâmica, generoso em carnes e acompanhado de arroz, farofa e couve.
Tem ainda pê-efes, espetinho de frango, esfirras e muitos salgados. Frango à passarinho. Cervejas variadas. Vitamina de abacate. Pudim de leite condensado para sobremesa. Dia e noite. É a cidade acertando sua posição, como cantou Billy Blanco em sua Sinfonia Paulista. Tudo junto ao mesmo tempo, uma síntese de São Paulo.











